Wednesday, 28 de September de 2005
Aborto: reflita antes de julgar
Tenho uma grande amiga que trabalha há anos na recepção de um pequeno hospital da Zona Leste paulistana - praticamente o mesmo tempo em que estuda enfermagem. Apaixonada por obstetrícia, chorou como nunca ao assistir um parto pela primeira vez. E ainda se emociona ao passear pelos bercinhos da maternidade.
Mas seu dia-a-dia não são apenas sorrisos, charutos e mães felizes. Certo dia, apareceu alguém com uma história de arrepiar. A mulher tinha provocado aborto e apareceu para realizar a curetagem (traduzindo: remover o resto). Não contou como foi, mas sim as razões: estava grávida do amante, e provocou o aborto escondido do mario.
Depois de uma cirurgia complicada, a mulher acertou tudo, passou seu batom e voltou para casa - saiu do hospital com a estratégia armada: ia contar pro marido que a menstruação chegou antes.
Antes que você condene a personagem central da história, saiba que essa história não é única. Pelo contrário: aborto clandestino é prática constante e indiscriminada, especialmente nas camadas de baixa renda. Trata-se da terceira causa de morte materna no Brasil. Há tempos deixou de ser uma questão filosófica: é um grave problema de saúde pública.
Atualmente, aborto só e permitido no Brasil em caso de estupro ou se a mãe sofrer risco de vida. Nas demais situações, a clandestinidade e a insegurança imperam. Felizmente, muitos estados brasileiros já liberaram quando o feto tem má formação - a tendência é a de que os processos similares, que se arrastam na Justiça, se baseiem na jurisprudência.
A questão vai mais longe: enquanto for considerado crime, a nossa personagem e tantas outras não terá o direito de praticar o aborto de maneira segura e com apoio do SUS. Ao mesmo tempo, não se deve esquecer o trabalho de prevenção e planejamento familiar, além da capacitação ética dos profissionais de saúde. E o mais importante para evitar esse e outros problemas sociais sérios: educação e esclarecimento. Principalmente para quem sofre mais com tudo isso e acaba não tendo acesso nem pelo que já é seu de direito.
Minha amiga quase-enfermeira registrou assim sua opinião sobre a mulher que engravidou do amante: “Tem muita sacanagem e falta de vergonha na cara como nesse caso. Mas apesar da inconsequência, não podemos julgar e sim ajudar. Por ser ilegal, o aborto gera muitos problemas: as mulheres praticam sem nenhuma informação e acabam no hospital com varias complicações - e especialmente com medo de serem julgadas. Essas mulheres precisam de assistencia e não de quem as condenem”.
Esclarecimento e assistência são as palavras-chave.
Este blog apóia debates sobre temas espinhosos, polêmicos e afins, mas dificilmente toma partido de forma explícita. Por outro lado, não tem como não se envolver com a questão diante da iniciativa do Nós na Rede. Mais uma vez, muitas cabeças aproveitam o dia não apenas para opinar, mas principalmente convidar os internautas à reflexão.
A data coincide com o dia latino-americano pela descriminalização do aborto, um dia após a entrega do respectivo Projeto de Lei à Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara. A proposta: permitir o aborto até a 12ª semana de gestação ou a qualquer momento quando a gravidez implicar risco de vida à mulher ou em caso de má-formação fetal, tudo pago pelo SUS - e, quem sabe, por planos de saúde.
Lembre-se da história presenciada pela minha amiga enfermeira e responda: até que ponto vale a pena conduzir as mulheres à clandestinidade ao invés de lhes dar a chance de escolher? Não é estimular, mas sim ter o direito, que é bem diferente.
O convite está feito: navegue pelos blogs amigos do Nós na Rede e veja o turbilhão de informações sobre o tema. Tente, se possível, despir-se de todas as suas convicções políticas e religiosas: o seu bom senso é suficiente.


