Monday, 9 de January de 2006
Tratado sobre as pessoas excessivamente exigentes
A Patrícia Köhler consegue transformar situações corriqueiras do dia-a-dia em verdadeiras lições de vida. Na história a seguir, a conclusão é bem simples: não perca tempo a procura de alguém que só existe na sua imaginação. Normalmente, a melhor oportunidade é aquela que está na frente do seu nariz.
1983: Alexandre, seis anos, na praia, fazendo um castelinho de areia. Aproxima-se Daniela, cinco anos e meio, e pergunta se pode ajudá-lo. Ele olha de esguelha, meio desconfiado de que na verdade ela é apenas uma menininha suburbana e sem dinheiro para ter seus apetrechos de areia. Mas assente com a cabeça e a deixa participar. Porém, após menos de dez minutos, Alexandre pede que a menina pare e vá brincar com outro, pois na verdade ela está mais atrapalhando do que ajudando. Daniela sai, cabisbaixa e chateada, mas três minutos depois já está chafurdando na areia com outras crianças. E, sozinho, Alexandre pensa: “imagina, como pode não perceber que a torre esquerda está um centímetro e meio maior que a direita? Que menina burrinha, eu hein?”.
1988: Alexandre, 11 anos, joga Atari na casa de um vizinho. Juliana, de nove anos, prima do vizinho e de passagem pela casa, pergunta se pode jogar também. Novamente Alexandre hesita, mas acaba concordando. Passados doze minutos, Alexandre insinua que quer continuar sozinho, pois acha melhor. Juliana deixa a sala meio melindrada, mas não demonstra muito aborrecimento. Sai à procura do primo, para brincarem de Pogobol. Alexandre, sozinho, reflete: “pô, como a menina não consegue passar desta fase da neblina? Uma coisa tão fácil, que saco!”.
1993: Alexandre, 16 anos, patina no gelo no Shopping Morumbi. Tatiana, da mesma idade, se aproxima e pergunta se ele se importa de patinar segurando sua mão por um tempo, pois é a primeira vez que ela faz aquilo, e tem receio de um tombo mais feio. Alexandre, para variar, fica com aquele ar blasé, mas acaba por segurar a mão da menina e a levar com ele. Os dois saem meio dessincronizados, já que Alexandre é patinador contumaz e mais veloz. Passados sete minutos, Alexandre diz que está muito difícil conciliar a atividade de patinador com a de guia. E a deixa sozinha, mas não sem antes tomar o cuidado de apoiá-la à grade de proteção lateral. E sai patinando sozinho, e pensando “afe, como ela não consegue perceber que, numa curva à direita, o ideal é perpassar a perna esquerda à frente da direita, e manter a direita praticamente parada? O risco de um tombo agindo assim é bem menor! Pô, como tem mina burrinha por aí, cruz credo!”.
2000: Alexandre, 23 anos, encontra Vanessa, ex-colega de faculdade, num bar na Vila Madalena. Ela mesma se encarrega de sentar à mesa e puxar conversa. Passados trinta minutos de papo, no entanto, Alexandre diz que está meio atrasado para um compromisso, e puxa seus dois amigos com ele para fora do bar. Ao ser perguntado o motivo de deixar o bar e a companhia agradável da amiga daquele jeito, Alexandre diz: “ah, vocês não perceberam o quanto a menina é limitada? Ela não sabia o que significa elidível! E nem manipanso! Também nunca ouviu falar do filme “O cheiro do papaya verde”. Ah não, me desculpem, mas mina tão inculta assim, comigo não tem chance!”.
2014: Alexandre, 37 anos, alto executivo de uma multinacional, sai com uma colega de trabalho, após muita insistência de alguns colegas que não o agüentam mais vê-lo solteirão. No dia seguinte, no trabalho, quando seus colegas perguntam sobre como havia sido o encontro, ele diz “ah, a Roberta é uma mulher interessante, atraente, relativamente culta, mas não sabe nada de vinhos! Isso me desanimou muito. Imagina que ela não soube diferenciar um tinto seco de um semi seco! Ah, não dá!”.
2067: Alexandre, 70 anos, bem debilitado por conta de uma doença degenerativa dos nervos, dono de um patrimônio e cultura invejáveis, casa-se com Rosicleide, 34 anos, ex-pedicura. Quando um antigo amigo o visitou, fez a pergunta indefectível: “Alexandre…como você, sempre tão exigente com as pessoas, sempre tão ranzinza e só querendo ao seu lado mulheres absurdamente cultas e espertas, casou com a Rosicleide? Ela está na sua sala assistindo ao Big Brother Brasil 58, e aqui ao seu lado está um bilhete escrito por ela: “amor, si vossê quizé auguma coiza, é só gritá qui eu çubu”…o que ela tem que as outras nunca tiveram?”. E, sozinho na cama, Alexandre diz: “é, meu amigo, no estado em que estou, tudo bem não saber nada de vinhos, nem ter lido “A montanha mágica”…tem é que saber trocar fralda geriátrica sem deixar nenhuma bolha de ar, e com as laterais milimetricamente alinhadas. Isso a Rosi faz como nenhuma outra. Fora o bolinho de fubá!”.
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O texto é muito bom para mostrar o que pessoas intolerantes são capazes quando precisam dos outros : ) Abraço.
Comentado por Carlos — Tuesday, 10 de January de 2006 às 13h32
E a realidade vive se repetindo. Beijus
Comentado por Luma — Tuesday, 10 de January de 2006 às 16h33