Thursday, 18 de May de 2006
É você sim, idiota!
Quantas vezes você se viu diante daquela pessoa que um dia foi tudo na sua vida, e no meio da última conversa, ouve a explicação para todos os problemas: “o problema não é você, sou eu”.
O assunto já foi tema de enquete do MMM em 2004. A conclusão da época é a mesma hoje. Você pode até ouvir essa frase batida com honestidade, mas ela sempre desperta dúvidas: “toda vez que leio essa frase, eu leio ao contrário: não sou eu, é você. O que, no fundo no fundo, é exatamente o que alguém quer dizer quando diz não é você, sou eu”, conclui sabiamente a minha amiga Laura. O tempo faz sumir com a situação chata pós-pé-na-bunda, desde que a gente esqueça tantos questionamentos e siga em frente de uma vez.
O tema voltou à minha mente no mês passado, depois de assistir ao filme argentino No Sos Vos, Soy Yo - versão em espanhol da velha desculpinha: “la historia que no conoces sobre las cosas que escuchaste mil veces”. Pena que ficou em cartaz em circuito restrito, por pouco tempo (talvez alguma loja virtual argentina já tenha o DVD).
Mas enfim, vamos ao filme. Javier tem 30 anos e é um cirurgião estabelecido em Buenos Aires, mas disposto a largar tudo para morar em Miami com Maria, sua futura esposa. Mesmo diante de uma relação monótona e chata, eles decidem se casar às pressas, justamente para adiantar a papelada do visto norte-americano. Para adiantar as coisas e sentir o terreno, Maria viaja primeiro. É o tempo de Javier pedir demissão, entregar as chaves do apartamento alugado e arrumar as tralhas para encontrá-la.
Só que um telefonema de última hora coloca tudo a perder: ao ouvir da imatura e confusa Maria um “não quero que venha, estou mal, não quero que me veja assim”, seguido de “o problema não é você, sou eu”, o mundo do agora corno Javier desaba completamente. E é na fase mais desesperadora do pobre homem que o filme, escrito e dirigido por Juan Taratuto, se desenrola, tornando-se uma espécie de manual: tudo que você não deve fazer após o fim de um relacionamento.
Seguem situações até exageradas e patéticas, mas que ficam até verossímeis com a interpretação do ator Diego Peretti, que transita facilmente entre o drama e a comédia. Extremamente deprimido, ele volta para a casa dos pais, onde resgata uma velha agenda de telefones para tentar sua “volta ao mercado” - algo tão desastroso quanto a idéia de comprar um cachorro ou mesmo seu retorno à mesa de cirurgia, onde a desorientação quase coloca sua carreira por água abaixo.
A perturbação de Javier, apesar de parecer caricata, é muito comum. Ao invés de tirar da cabeça a idéia de que Maria era tudo em sua vida, ele se agarra nela por muito tempo. E mesmo quando ele tem uma chance de espairecer, como numa sessão de cinema, ele se lembra que está sozinho.
Mas não falta gente para ajudá-lo em sua árdua tarefa de dar a volta por cima: desde o fiel casal de amigos até o impagável psicólogo (o ator Marcos Mundstock), que rouba a cena em suas poucas aparições. Seus clichês muito úteis (primeiro vem dúvida, depois a tristeza, e por fim a raiva; você não se apaixona pela pessoa, mas pela situação) não funcionam, a ponto do analista perder completamente a paciência com seu mais transtornado paciente.
Para alegria de Javier, esse é um filme que acaba bem. Ele consegue um novo lugar para morar, um emprego em uma clínica de cirurgia pástica… E natualmente, como deve ser, uma nova namorada. Aqui a proximidade com a realidade faz mais sentido: independente de como a sua vida ficou bagunçada após ouvir “o problema não é você, sou eu”, tudo volta ao normal assim que você se reencontra. Até mesmo Maria, o grande amor de sua vida, desce do pedestal e ocupa seu devido lugar.
(Não encontrei o trailer do filme, mas descobri no site Lo Que Yo Te Diga um rico arquivo em mp3 com alguns diálogos do filme e entrevista com o diretor).
Muitos comentários: 5 »
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parece interessante. poderia até fazer um par com o filme Alta Fidelidade. A única diferença é que no filme americano a namorada do personagem principal diz que a culpa é dele mesmo, hehehehe.
voltndo para a vida real o filme explora várias situações, de forma caricata como você afirma, e que realmente acontecem. quem nunca ouviu essa desculpa esfarrapada que jogue a primeira pedra.
Comentado por gilson — Thursday, 18 de May de 2006 às 14h40
Sobre pessoas importantes do passado, acho que superei todo meu estoque de emoções hoje, teclando com um caso mal-resolvido de quinze anos atrás. Tudo por culpa do Orkut… e a conversa de ambos girou mais ou menos nesses termos - “o problema era comigo”…
Honestamente, depois da conversa de hoje, sinto-me como se tivesse sido atropelado por um caminhão, depois por um trator, depois por uma carreta, depois por um ônibus, depois por um trem. Tudo na seqüência.
Comentado por Alexandre Sena — Thursday, 18 de May de 2006 às 18h34
O problema com essas comédias românticas ( pelo que entendi esse seria o gênero do filme) é que a gente tende a acreditar que na vida real também teremos um final feliz…
Comentado por Viva — Thursday, 18 de May de 2006 às 22h02
Que dica interessante! Fiquei curiosa, eu que não sou fã de comédia-romântica, tenho que adimitir que o nome do filme é intrigante…rsrs
quem será que nunca ouviu ou disse uma frase dessa?
Muitlo bom esse blog!
;)
Comentado por Fran — Friday, 19 de May de 2006 às 13h18
Quer um filme muito bom sobre relacionamentos? “Brilho Eterno de uma mente sem lembranças”.
Lindo. E real.
Um abraço!
Comentado por Mr. Pinguim — Friday, 19 de May de 2006 às 21h03