Monday, 12 de February de 2007

Equação diferencial

Eu tenho muitas, incontáveis teorias sobre relacionamentos. Algumas delas totalmente infundadas, pois se baseiam na minha momentânea desilusão com o amor verdadeiro - aquele que deveria ser espontâneo, desinteressado e voluntário. Nenhuma dessas teorias, no entanto, conseguiu ser tão matematicamente perfeita quanto a desenvolvida pela Kandy Saraiva no último dia 12 de junho.

“Crescei e multiplicai-vos.” O ser humano não nasceu para ser sozinho, ainda que freqüentemente esteja. Sim, porque ser e estar têm sentidos diferentes, embora sejam verbos “de ligação”. Quero dizer que ligam o ser humano à solidão de formas distintas…

1) A solidão nos faz ímpares se estamos sozinhos.

Desde pequenos vemos o ímpar com olhos não tão bons quanto aqueles com os quais vemos o par. Nas aulas de Matemática, os números ímpares são sempre os mais chatos, porque qualquer par é divisível por dois. O ímpar não divide tão fácil, dá conta quebrada, quebra a cabeça, é mais complexo. Talvez aí esteja a graça.

Na sociedade também é assim, por isso ela só sabe viver em par: é mais simples. Ser ímpar é um desafio e tanto. Sopa de pacotinho serve 2 ou 4 pratos; as salas de jantar têm 4, 6 ou 8 cadeiras; os assentos díspares que não foram vendidos permanecem sempre vazios nos shows; quando entramos sozinhos em um restaurante os garçons sempre perguntam “está esperando alguém?”; os aparelhos de jantar têm 12 ou 24 peças; qualquer promoção em rádio presenteia com “um par de ingressos” e por aí vai.

Aí reside o x da questão: as pessoas não estão preparadas, ainda, para lidar com o ímpar. E impor-se como tal, além de dar trabalho (a tal da conta quebrada), causa estranhamento. E quase todos os que vivem em par não se conformam com a condição dos que ainda vivem ímpares. Às vezes, ainda que inconscientemente, incomodam-se com a solidão alheia como se a felicidade dependesse do par, como se só fôssemos completos se estivéssemos ao lado da cara-metade. Esquecem-se de que já nascemos números inteiros. Todo mundo quer encontrar um par, é verdade, mas, independentemente disso, precisa aprender primeiro a ser ímpar.

Há dezenas, centenas, milhares de pessoas, por exemplo, que ficam com qualquer par porque nunca se aceitaram ímpar e, não raro, acabam numa regra de três. Há par que, apesar de admirar quem sabe estar ímpar, não tem coragem de ser feliz sozinho e prefere a infelicidade ao quadrado. Mas é preferível ser um ímpar em evidência a tornar-se um par nulo.

É sendo ímpar que tornamo-nos números positivos, temos a chance de nos conhecer melhor, de sermos independentes no bom sentido, de aprendermos a respeitar nossas vontades e observar que existem outras diferentes das nossas, de desenvolvermos nossa tolerância e de entender melhor o que é privacidade… nossa e dos outros.

Ir sozinho aos lugares, por exemplo, é espantoso para quem é par. Claro que ir em par é mais legal, mas, na falta de um, não se pode deixar de fazer as coisas. “Ué? Você veio sozinha?! Cadê seu namorado?”, como se minha presença como número inteiro estivesse pela metade. “Caramba! Você foi viajar sozinha? Você é corajosa!”, como se isso fosse uma incógnita na cabeça de quem só pensa em par. Há quem viva em par mas que só sai se for em par. Uma coisa é querer ir aos lugares com a cara-metade por apreciar a companhia dela; outra é querer ir com ela apenas por não saber ou não conseguir ir como unidade.

O ímpar atrapalha, como se fosse um elemento não contido no conjunto. Para ele sempre falta cadeira (porque sempre se está esperando um número par) e sobre ele impõe-se uma aura de melancolia gratuita: “Coitado, é sozinho”. Sempre fazem a conta errada… o produto do cálculo deveria ser está sozinho.

Ainda que esse ímpar viva assim para o resto da vida por motivos que só o Universo conhece, sabendo ser ímpar — no sentido de “único”, “sem igual”, “autêntico” — e estar ímpar, enquanto não acha seu par, ele vai ser feliz, porque se basta a si mesmo e não vai esperar que alguém o complete. Quando encontrar seu par, ele vai poder se doar, inteiro, porque, em vez de se subtraírem, se completarem, eles vão se somar e saber dividir.

2) A solidão transforma os ímpares em números primos se são sozinhos. E separa os pares.

O outro verbo de ligação, o ser, é mais radical. Se alguém é sozinho, sua condição de ímpar (no segundo sentido, de não-par) deixa de ser transitória para configurar-se infinita. Ele será ímpar sempre, ainda que viva em par. Não raro, apresenta sérias dificuldades em se relacionar com os outros porque quer tirar raiz quadrada de tudo e está sempre saindo pela tangente. Torna-se número primo, mais chato ainda, só divisível por si mesmo ou por um. Mais egoísta, impossível.

É sozinho quem, mesmo cismando em viver em par, não sabe estar ímpar. Torna-se um número irracional(1), um número negativo, um mero segmento de reta. Espelha-se no outro, espera do outro, depende do outro, projeta cem por cento de suas expectativas no outro, não respeita o outro como diferente porque, em vez de dois inteiros que decidiram viver juntos, pensa serem metades se completando, tendo de pensar e se comportar como uma única unidade. Esquecem-se de que nasceram dois e de que, como tal, já eram inteiros assim.

-x-y-z-

Eu estou ímpar e bem longe de tornar-me um número primo. Quero ser um número composto(2) e formar um par, mas não me sinto incompleta por isso, porque, apesar de não ser tão boa em Matemática, tenho sabido estar ímpar. Quero adicionar alguém à minha vida e ser uma equação diferencial na vida de alguém (é, eu sou complexa!), para multiplicar tudo de positivo que ambos contiverem em seu conjunto.

Feliz Dia dos Namorados.


P.S.: Há uma música do Tom Jobim que diz que “é impossível ser feliz sozinho”. Mas há outra, que dialoga com esta, chamada “Satisfeito”, de autoria da tríade Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, que contesta tal afirmação. Segundo a própria intérprete, embora os compositores dessa última canção sejam todos casados, acreditam que é preciso ser feliz primeiro sozinho para, aí sim, ser feliz com alguém.

(1) número irracional: que não pode ser representado pelo quociente de dois números inteiros.
(2) número composto: um inteiro que não é primo.

Contagem regressiva: faltam 10 dias para a “grande mudança”


Muitos comentários: 7 »

  1. Texto longo, mas li de ponta a ponta, e adorei!

    A solidao eh algo mto complexo hoje em dia.
    Deduzir que o mundo virtual no qual vivemos pode ser considerado um indicio para tal, acho pelo sim, e acho pelo nao.

    Depende mto do ponto de vista, enfim, como eu disse, mto complexo! rs

    Forte abraco campeao!

    “grande mudanca” ?

    Comentado por Vinicius Taques — Tuesday, 13 de February de 2007 às 7h15

  2. O texto pode até ser longo. Mas vale apena a leitura de cada linha. Parabéns pela bela publicação.

    Quanto ao tema abordado. Ele é bastante complexo (Eu que o diga!). Mas a abordagem apresentada no texto é bastante motivadora. Preciso pensar sobre o assunto. Mas pensar dói! Dói muito!

    Boa sorte jovem!

    Comentado por Alexandre Sousa — Tuesday, 13 de February de 2007 às 20h25

  3. André, que honra vc publicar um texto meu! Caramba! Estou sem palavras! Obrigada! E continuo acreditando em cada palavra que escrevi aí. Acho que amores verdadeiros (os desinteressados, espontâneos e voluntários) existem, sim, mas nem todas as pessoas têm a sorte de serem por eles contempladas. Então, a gente se contenta com um amor recíproco, atencioso, companheiro e tal. Vai chegar a nossa vez, não desista! Bjos e obrigada de novo. Nem sei o que dizer…

    Comentado por Kandy — Tuesday, 13 de February de 2007 às 21h05

  4. Poxa, realmente muito divertido esse texto.A idéia de fazer a analogia com os números ímpares foi fantástica! =D

    Comentado por ascka — Tuesday, 13 de February de 2007 às 22h39

  5. As analogias matemáticas foram deveras inusitadas. Gosto de matemática. Amor, aqui amanhã se me pintar chocolate jogo pela janela. Diamonds are a girl’s best friends.

    Comentado por tina oiticica harris — Wednesday, 14 de February de 2007 às 1h02

  6. Este texto da Kandy é maravilhoso e cheio de verdades… :-)

    Muito boa sua escolha, André! ;-)

    Comentado por Patrícia Köhler — Wednesday, 14 de February de 2007 às 20h26

  7. olá
    parabéns este texto é perfeito … parabéns!

    Comentado por marcia — Wednesday, 28 de February de 2007 às 12h58

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