Sunday, 18 de February de 2007
Geração Copia e Cola
Não faz muito tempo em que viagens à biblioteca Mário de Andrade e tardes debruçadas em folhas de papel almaço representavam nosso esforço em realizar um belo trabalho escolar. Hoje qualquer idiota pinça duas ou três páginas da Wikipedia ou qualquer coisa estranha vinda do Google e manda imprimir. É o fim de uma das mais deliciosas atividades estudantis, especialmente quando feita em grupo. O futuro jornalista Thássius Veloso traçou um panorama muito interessante dessa transição do mal.
Todos aqui com certeza já foram, ou são, estudantes. E como tal, também já conviveram com os fabulosos trabalhos bimestrais, uma forma usada pelos alunos para se garantir nas matérias que não têm embasamento, desde física até educação artística.
Na época de mamãe os trabalhos em grupo eram de fato em grupo. Os coleguinhas se reuniam com os livros, enciclopédias, dicionários e mais quilos de papéis debaixo do braço e começavam o processo de triagem. Isso poderia levar horas; até mesmo dias. E no fim das contas todos participavam e todos tinham seu belo nome incluso no relatório de participação.
Já nos tempos modernos o advento da internet permitiu que os alunos pudéssemos agilizar todo esse processo. “Papel” é um termo em extinção; reunião mesmo só por MSN. E aí começam os nossos problemas.
A começar pela velha desculpa de sempre. “Não sou rico. Não tenho Velox (substitua pelo seu plano simples de serviço banda larga)” solta aquela pessoa cujo genitor comprou há poucos meses o carro do ano, capaz de ter acesso Wi-Fi. Mas eu nada respondo. É melhor. Antes ouvir isso do que uma outra história, de que o PC simplesmente pifou (exatamente no dia que a pessoa tirou para trabalhar em algum projeto).
Vem outro dizendo que a ele nada foi designado. Talvez ele não saiba que um trabalho em grupo, pelos moldes normais, não tem líder. Mas você já tentou explicar este simples fato ao ser que concebeu esta visão de grupo? Bem, eu já desisti de explicar.
Mas talvez o maior problema ainda sejam as fontes das informações. Como eu sei que nego não se preocupa nem em ler o que escolheu para enviar como sendo sua parte? Simples: basta perceber os “Clique aqui”, “Saiba mais” ou até mesmo alguns banners e copyright. A Geração Copia e Cola faz jus à sua denominação. Nem textos provenientes da nossa ex-metrópole Portugal são poupados.
Sem contar que nem todos os sites, não-sei-quantos bilhões que estão indexados pelo Google, são confiáveis. A Wikipédia é uma das que sofrem com o estigma de ser fonte de pesquisa e não ter 100% de veracidade em seus itens. E não sou eu que digo isso, mas o fundador dela.
E tudo isso é enviado, ou melhor, “jogado” por e-mail. Eles enviam e esquecem da vida. E o coitado que vai montar o trabalho, compilar as informações, é quem sofre. Quem tem que se virar para transformar muita coisa inútil em algo produtivo e que valha nota. Alguém tem coragem de dizer que não há motivo para reclamar?
Contagem regressiva: faltam 4 dias para a “grande mudança”
Muitos comentários: 4 »
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Quando fazia trabalhos de grupo, só a partir da FAU-UFRJ, era muito gozado. Alguém tinha que organizar o grupo ( mandar nele), disponibilizar recursos tais como pranchetas, comida para o corpo, finalmente alguém tinha que escrever a memória do projeto.
Só escrreve memória quem sabe português e a arte do embromation. Como os arquitetos gostam de bazófia eu estava mais feliz que pintinho no lixo, sebosa tal os “mestres” “socialistas.” A gente trabalhava ao som do violão, Edu, Milton. Bicho, tá sumindo tudo. E se o buraco do metrô tiver sido um teste para a hecatombe final?
Comentado por tina oiticica harris — Sunday, 18 de February de 2007 às 23h25
Excelente texto. Eu já me peguei pensando sobre este assunto. A geração do copia e cola tende a se tornar vazia, sem conteúdo. Durante a leitura do texto pensei também em outra coisa: Será que as bibliotecas sobreviverão a esta revolução? Aquela coisa de fazer o cadastro, pegar o livro emprestado e passar alguns minutos convecendo a recepcionista a deixar mais alguns dias com você, creio eu, já não existe mais. É triste. Abs, Minuto - http://www.minuto.tk
Comentado por Minuto — Monday, 19 de February de 2007 às 18h49
Copiar e colar é um belo método de pesquisa. Sem ele, a plataforma Lattes do CNPq teria algumas dezenas (centenas?) de artigos a mais, e a pesquisa brasileira teria numeros menos impressionantes, não é mesmo? Eu não me refiro a trabalhos de universidades vagabundas, mas da elite da pesquisa nacional. Seria, por exemplo, um aluno de doutorado em letras de uma universidade como a Unicamp capaz disto? Talvez, se ele seguir o exemplo dos seus mestres. Olha só como este artigo escrito por um PhD da Unicamp se parece com sua fonte (não citada). Ah, mas será que foi mesmo cut and paste?
Comentado por Helder — Thursday, 22 de February de 2007 às 0h46
Correção: Na verdade, quis dizer, que sem o cut-and-paste a plataforma Lattes teria algumas dezenas (centenas?) de artigos a menos (pois desconfio muito da qualidade do que se publica na academia)
Comentado por Helder — Thursday, 22 de February de 2007 às 0h50