Depois

Seu Chico era visita frequente no sítio dos meus pais. Contava dezenas de causos. Não posso dizer que eram inesquecíveis porque não lembro de nenhum. Ele chegava no meio da tarde, sentava com meus pais, falava sobre coisas do campo, sua vida no nordeste, os perrengues compartilhados naquele rincão à beira da Serra do Mar…

Eram horas de prosa. Seu Chico trocava boa parte das suas tarefas cotidianas por encontros vespertinos. Ou, vai ver, fazia só meio expediente. O fato é: sempre que perguntávamos se aquilo não o atrapalhava, a resposta vinha na hora:

— Tem sempre o que fazer. Mas fica pra sumana.

Era como uma encenação permanente daquele comercial onde Juca de Oliveira dizia “depois nóis desatola“ ao ouvir que a vaca foi para o brejo. Profissionais especializados no comportamento humano usam uma palavra para explicar este modo de agir: procrastinação.

Eu mesmo já devo ter escrito sobre o tema algumas vezes. Mais tarde eu procuro. Tenho algumas anotações sobre coisas que já li sobre gestão de tempo, vida com propósito, coisas que dialogam com o tempo que a gente tem. Esse texto , inclusive, estava no meu backlog há semanas.

Recentemente, criei um site dedicado ao tema. Tenho outras ideias no meu backlog para atualizá-lo. No final, sou sempre surpreendido por alguma outra tarefa pra fazer. Depois eu mexo nisso.

Procrastinação me faz lembrar de um encontro inusitado e muito marcante que tive na vida. Fui abordado na saída de um estacionamento, em Pinheiros. Isso deve ter uns 15 anos. Eu usava uma camiseta com a frase “procrastinadores: os líderes do amanhã“.

— Sabe quem pensa assim? João Ubaldo Ribeiro! Ele adora falar sobre como levar a vida assim… Devagar…

Arregalei os olhos e pedi para o dono daquela voz entusiasmada me contar mais. Ele dizia que João Ubaldo Ribeiro descobriu uma associação internacional de procrastinadores. Pediu uma ficha de inscrição. Levou anos pra chegar. Mais algumas semanas até preencher e, um dia quem sabe, levaria para os Correios. Nunca soube se enviou mesmo. Também não saberia se a tal associação realmente processava os pedidos de filiação ou, enfim, seguia seus princípios.

Num lampejo, minhas parcas sinapses me fazem perguntar:

— Não quero interromper mas… Alguém já lhe disse que o senhor se parece com aquele escritor, o Fernando Morais?

— Pois sou eu mesmo!

Minhas parcas sinapses deram tilt. Não sabia se falava o quanto o admirava desde as biografias que todo estudante deveria ler até Cem Quilos de Ouro: e Outras Histórias de um Repórter. Talvez eu tenha optado por estampar minha admiração enquanto continuava a ouvir sobre como aquela associação era ótima, já que entregava exatamente o que prometia. Ubaldo, dizia Morais, celebrava sua relação profunda com o tempo. Vivia nessa relação deliciosa de amor e ódio com prazos. Gente como a gente.

Então o carro de Fernando Morais chegou. “Preciso escrever sobre isso antes que seja tarde!”, pensei.

Nunca desejei ser Fernando Morais ou João Ubaldo Ribeiro. Talvez eu inveje aquela leveza baiana. Ou a de Seu Chico. “Fica pra Sumana” significa adiar o encontro com o “depois”. Aquele momento que a gente acha, primeiro, que vai demorar; então a gente olha para trás e lamenta: o depois já passou.

Meu backlog ainda guarda anotações como “escrever uma mensagem praquele amigo antigo”. “Estudar a relação entre cibernética e design “. “Gravar um podcast sobre a vida“. “Atualizar o Clube dos Procrastinadores”. Trivialidades que se perdem no meio de outros pratos que precisam girar: pagamento de boletos, crianças, cachorro, coisas que sugam nosso dia, nos fazem pensar que estas são as prioridades da vida.

Todo final de mês vira uma dolorida autoavaliação do que restou; dificilmente acontece uma visão de futuro. O “depois” não se importa. É a manutenção permanente do atraso, segurando a vida para que ela não piore. O tempo já não me pertence: são os juros cobrados pela fatura emitida pelo “depois”.

Lembro de ter desabafado com um amigo de longa data. A resposta, por escrito, é inspiradora. Reproduzo aqui.

Você é um aprendiz. Como todos nós somos. Faça amizade com o tempo. E ele ensinar-te-á tudo para que tu o vejas como companheiro e não como opressor.

Aliás, tu bem sabes: tudo flui. Tudo passa! E por vezes num piscar de olhos. A vida é bem isso! Não se prenda! Deixa as coisas, as pessoas, os meses fluírem. Torne-se amigo do fluxo! Aí você jamais se sentirá martirizado por algo!

É preciso saber equilibrar tudo. É preciso ser malabarista. Nisso, cada um tem de achar a sua própria corda bamba. E também ela tem um final! É preciso saber onde ela fica presa. E com certeza, ela se prende no transcendente! Prendendo-a no material, mais cedo ou mais tarde acordamos caídos no chão.

“Então vamos! Esse ano vai ser diferente!”, pensei.

O ano, claro, começa depois do Carnaval. Viajei para o sítio dos meus pais naquele feriado. Levei meu backlog na bagagem. Também um pouco de esperança: não vou chegar no final do mês olhando pro buraco que não se fechou. Construir ao invés de segurar pra não cair.

Fui deitar na segunda-feira com meus planos rabiscados em um dos meus papéis sulfite dobrados. Havia iniciado um resumo expandido sobre minhas descobertas sobre Ranulph Glanville. Convenci as crianças a assistirem alguns minutos de desfile na TV antes dos mesmos desenhos de sempre. Fomos deitar. Não consegui tomar banho. “Tudo bem, ainda tem um feriado inteiro”.

“Fica pra sumana”, né, Seu Chico?

Lá pelas onze da noite, minha mãe me tirou da cama.

— Estou muito preocupada! Seu pai não está bem!

Encontro o mesmo sujeito que havia desejado “boa noite” horas atrás sem conseguir movimentar o lado esquerdo. Também não dava pra entender o que dizia.

Saí correndo no mato em busca de sinal do celular. Mandei a localização daquele rincão à beira da Serra do Mar para o socorrista do SAMU. Fiquei ao lado dele até a ambulância entrar pela porteira. Segui com ele para a emergência, balançando pela estrada de chão.

O Carnaval passou. Por hora, a quem interessar, digo que meu pai está em casa, depois de 80 dias internado. Não sei como ele vai ficar ou o que quer fazer depois que se recuperar. Nesse instante, esse texto está aberto na minha frente enquanto me preocupo com as urgências. Pensando em alguma história pra concluir. Alguma parábola sobre a minha inaptidão em lidar com o fim das coisas?

Fica pra sumana.

***

Esses dias, meu amigo Clécio lembrou desse verso, normalmente atribuído a Gonçalves Dias. “Não quis, sobrando tempo, fazer conta / Hoje, quero acertar conta, e não há tempo”. Não tenho certeza se é dele. Depois eu procuro.

André Marmota é professor universitário e ouvinte frequente da pergunta “mas e além disso, você também trabalha?”. Quer saber mais?

Leia outros posts em E eu, uma pedra.